Filmes | Resenha - Mary and Max

Eu não sou a maior fã de filmes de animação. Com exceção de alguns filmes do Tim Burton, são poucos os que me interessam. No entanto, Mary and Max até que me impressionou.
Nunca gostei de filmes de animação por achá-los relativamente bobos em comparação aos filmes live-action. Mary and Max foi um filme que comecei a assistir cética, mas meu conceito sobre ele mudou assim que percebi que era um filme mais voltado para adultos e, o melhor: Baseado em fatos reais.



Mary é uma garota de 8 anos, que vive em Melbourne, Australia, cuja mãe é alcoolatra e o pai, por trabalhar demais, acaba por não dar a ela a atenção desejada. É fã do desenho "Noblets", cria seus próprios brinquedos com sutaca e passa muito tempo com seu gato, Ethel. Ela é uma criança solitária e que sofre muito bullying na escola por uma mancha na sua testa, que ela diz ser "cor de cocô". Ela não tem amigos, mas gostaria. Seu vizinho é um senhor que teve as pernas amputadas, e que tem medo de sair de casa, por isso ela pega a correspondência para ele. Seu outro vizinho é Damian Popodopolous, um garoto gago por quem ela é apaixonada.



Um dia, enquanto acompanhava sua mãe em uma loja, Mary encontrou uma lista telefônica, e lendo alguns nomes, anotou o endereço de Max Jerry Horowitz, um homem de 44 anos com obesidade mórbida e síndrome de Asperger. Também é uma pessoa solitária, divide um apartamento com alguns animais, como um peixe dourado e um gato, e Ravióli, seu amigo imaginário. Assim como Mary, Max também foi uma criança que sofria bullying.
Mary resolve mandar uma carta para Max. Conta sobre sua mancha na testa, a cor dos seus olhos, Noblets, diz que gosta de comer chocolate e leite condensado, e manda uma foto sua e um chocolate da Austrália para ele. No fim da carta ela pergunta "De onde vem os bebês na América? Aqui eles aparecem em canecas de cerveja..."

Ao receber a carta, curioso, Max o lê cuidadosamente, mas a pergunta de Mary desperta lembranças que o causa uma crise, por conta da síndrome de Asperger. Ele se isola, em surto, até se acalmar. Aí então ele resolve responder a carta de Mary, comer o chocolate, e assim foi contando sobre a sua vida, desde seus animais, sobre sua síndrome, sobre como há anos jogava os mesmos números na loteria e sobre o cachorro quente de chocolate que ele inventou.


O filme mostra essa troca de cartas por vários anos, e como ocorreu a evolução na vida de cada um. Mas o interessante mesmo é a sensibilidade com o qual diversos temas são retratados, como o autismo e a solidão, o bullying na vida dos personagens e a forma como isso os afetou. Mary resolve, por exemplo, se formar em Psicologia e acaba escrevendo um livro sobre Asperger baseado na vida de Max. A falta de um modelo materno/paterno na vida de Mary e as consequências que foram tragas também é algo interessante. A mãe de Mary é alcoólatra e vivia dizendo que Mary foi um "acidente", e o pai de Mary era um taxidermista que passava o dia a empalar animais mortos e, por várias vezes, Mary se queixava da falta do pai. Então há cenas, no futuro, em que é perceptível uma relação dos fatos. Por exemplo, Mary acaba por se casar com Damian, mas logo após ele a deixa por outro homem e a solidão acaba levando Mary ao alcoolismo, como sua mãe.


Por ser uma fã declarada do Tim Burton, é desnecessário dizer que eu gosto de filmes com poucas cores, tons um pouco mais sombrios e, em casos das animações, stop motion. Mary and Max, diferente das animações com o qual as pessoas estão acostumadas, não traz uma explosão de cores, ao contrário. A fotografia trabalha bastante com tons com saturação baixa, usando das cores para enfatizar objetos em cena. Por ser stop motion, os personagens parecem bem "tocáveis", como bonecos na sua frente. Fora os detalhes usados em cena: Eu amo fotografia macro, então cada detalhe, por menor que seja, que foi utilizado em móveis, nos animais, personagens e entre outros objetos, não passaram despercebidos. O filme tem também uma narração incrível, feita pelo autor australiano Barry Humphries.

Apesar de ser um filme demasiadamente melancólico, ele passa mensagens boas. A forma como ele retrata a estética, por exemplo, a busca por uma aparência perfeita, e no fim, auto aceitação.
Como eu disse anteriormente, é um filme mais voltado para adultos. Feito para fazer você sentir e pensar. É simples, porém sensível. Eu me assusto um pouco toda vez que me lembro que esse é um filme baseado em fatos reais, pela diferença de idade entre os dois, mas a amizade que foi estabelecida entre eles é sem dúvida algo belo.




Nota: 7,9/10

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